Bibliografia
Acompanhe aqui as leituras que tem sido feitas pelo grupo Fitopoéticas.
A bibliografia pertinente ao tema de estudos do grupo Fitopoéticas foi e é elaborada a partir de dois aspectos importantes: em primeiro lugar, o reconhecimento das vozes e da sabedoria dos povos originários, convidando, assim, para a discussão, ao lado ciência e da filosofia tradicionais, as palavras de líderes indígenas como Ailton Krenak, Davi Kopenawa, Daniel Munduruku, entre outros, abrindo o campo para diferentes e muitas vezes impensadas novas formas de especulação filosófica. Em segundo lugar, é preciso destacar a forte dimensão interdisciplinar da pesquisa, uma vez que diversas áreas do conhecimento científico-acadêmico se imiscuirão em meio às discussões. Trabalhos como o de Stefano Mancuso, de François Hallé, Jean-Marie Pelt estarão em constante diálogo nas discussões propostas pelo grupo. Importante ainda mencionar as reflexões político-ambientais e ainda a nova antropologia, em nomes como o de Bruno Latour, Phillipe Descolas ou ainda a proposta canibalista de Eduardo Viveiros de Castro.
Pouco falamos delas e mal sabemos seus nomes. A filosofia as negligenciou desde sempre, com desprezo mais do que por distração. São o ornamento cósmico, o acidente inessencial e colorido relegado às margens do campo cognitivo. As metrópoles contemporâneas as consideram os bibelôs supérfluos da decoração urbana. Fora dos muros da cidade, são parasitas – ervas daninhas – ou objetos de produção em massa. As plantas são a ferida sempre aberta do esnobismo metafísico que define nossa cultura.
É para cuidar da ferida aberta pelas inúmeras crises engendradas pelo sistema capitalista que o martinicano Malcom Ferdinand propõe uma ecologia decolonial, uma abordagem interseccional extremamente sagaz que reúne o ecológico com o pensamento decolonial, antirracista, em uma crítica contundente ao “habitar colonial da Terra”. Nesta análise urgente, Ferdinand critica o que chama de “dupla fratura colonial e ambiental da modernidade”, de que resultam, por um lado, as teorias ecologistas que desconsideram o legado do colonialismo e da escravidão; por outro, os movimentos sociais e antirracistas que negligenciam a questão animal e ambiental.
Édouard Glissant (1928-2011) foi um pensador da diáspora que elaborou um impactante projeto filosófico e poético para refletir sobre os efeitos da colonização. Para isso, liberou-se das matrizes conceituais do Ocidente, abrindo espaço para que o sujeito afrodiaspórico se tornasse protagonista da análise de sua própria experiência estética e cultural. Um dos seus mais importantes conceitos é o da Relação, um processo de contaminação de todas as diferenças reunidas sob as correntes da escravidão e do colonialismo. A Relação pressupõe conhecer o abismo dessa experiência, pois é a partir dela e da abertura da imaginação que se dá a partilha de mundos unidos pela própria separação. Poética da Relação, ensaio filosófico atravessado por uma linguagem poética, se tornou uma referência em todo o mundo, além de título essencial da bibliografia de Glissant, autor de uma obra colossal, englobando ensaios, poesia, romances e teatro. Prefácio de Ana Kiffer e Edimilson de Almeida Pereira.
Um dos mais influentes pensadores da atualidade, Ailton Krenak vem trazendo contribuições fundamentais para lidarmos com os principais desafios que se apresentam hoje no mundo: a terrível evolução de uma pandemia, a ascensão de governos de extrema-direita e os danos causados pelo aquecimento global. Crítico mordaz à ideia de que a economia não pode parar, Krenak provoca: “Nós poderíamos colocar todos os dirigentes do Banco Central em um cofre gigante e deixá-los vivendo lá, com a economia deles. Ninguém come dinheiro”. Para o líder indígena, “civilizar-se” não é um destino. Sua crítica se dirige aos “consumidores do planeta”, além de questionar a própria ideia de sustentabilidade, vista por alguns como panaceia.
A ideia de futuro por vezes nos assombra com cenários apocalípticos. Por outras, ela se apresenta como possibilidade de redenção, como se todos os problemas do presente pudessem ser magicamente resolvidos depois. Em ambos os casos, as ilusões nos afastam do que está ao nosso redor. Nesta nova coleção de textos, produzidos entre 2020 e 2021, Ailton Krenak nos provoca com a radicalidade de seu pensamento insurgente, que demove o senso comum e invoca o maravilhamento. Diz ele: “Os rios, esses seres que sempre habitaram os mundos em diferentes formas, são quem me sugerem que, se há futuro a ser cogitado, esse futuro é ancestral, porque já estava aqui.”
Ailton Krenak nasceu na região do vale do rio Doce, um lugar cuja ecologia se encontra profundamente afetada pela atividade de extração mineira. Neste livro, o líder indígena critica a ideia de humanidade como algo separado da natureza, uma “humanidade que não reconhece que aquele rio que está em coma é também o nosso avô”. Essa premissa estaria na origem do desastre socioambiental de nossa era, o chamado Antropoceno. Daí que a resistência indígena se dê pela não aceitação da ideia de que somos todos iguais. Somente o reconhecimento da diversidade e a recusa da ideia do humano como superior aos demais seres podem ressignificar nossas existências e refrear nossa marcha insensata em direção ao abismo.
Um grande xamã e porta-voz dos Yanomami oferece neste livro um relato excepcional, ao mesmo tempo testemunho autobiográfico, manifesto xamânico e libelo contra a destruição da floresta Amazônica.
Publicada originalmente em francês em 2010, na prestigiosa coleção Terre Humaine, esta história traz as meditações do xamã a respeito do contato predador com o homem branco, ameaça constante para seu povo desde os anos 1960. A queda do céu foi escrito a partir de suas palavras contadas a um etnólogo com quem nutre uma longa amizade – foram mais de trinta anos de convivência entre os signatários e quarenta anos de contato entre Bruce Albert, o etnólogo-escritor, e o povo de Davi Kopenawa, o xamã-narrador.
Para Stefano Mancuso, o verdadeiro potencial para a solução dos problemas que nos afligem está nas plantas. Sua autonomia energética, ligada a uma arquitetura cooperativa, distribuída, sem centros de comando, faz delas seres vivos capazes de resistir a repetidos eventos catastróficos e de se adaptar com rapidez a enormes mudanças ambientais. Ao revelar a capacidade das plantas de aprender, memorizar e se comunicar, o cientista fundador da neurobiologia vegetal propõe um novo modelo para pensar o futuro da tecnologia, da ecologia e dos sistemas políticos. XII Prêmio Galileo de escrita literária de divulgação científica 2018.
As plantas não podem falar, mas a sensibilidade e a inteligência vegetal emergem nos escritos ao longo dos séculos. Tanto na modernidade clássica, como os de Alberto Caeiro/Fernando Pessoa, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector; quanto nos contemporâneos, como os de Ana Martins Marques, Edimilson de Almeida Pereira, e Leonardo Fróes. Para auxiliar na escuta clorofílica, nos acompanham importantes nomes da filosofia e da crítica cultural. E como em uma floresta, esses são apenas alguns representantes literários e teóricos em uma infinidade de singularidades não determinadas e não determináveis, mas em constante floração e descoberta.